• Aldomar de Castro

Rodeio

O Rio Grande do Sul, não teve a sorte das províncias do Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Minas Gerais e outras. Quando estes já contavam com cidades, o nosso Rio Grande ainda era considerado terra de ninguém, pois em 1534 D. João III resolveu dividir as terras brasileiras em Capitanias. Porém, as do Sul não fizeram parte dessa divisão. O Sul, iniciou suas atividades povoeiras em março de 1626, com a fundação de São Nicolau pelos Pe. Roque Gonzales e Miguel Ampuero, foram obrigado abandonar o local com os freqüentes ataques dos bandeirantes. Em 02 de fevereiro de 1687 o próprio Pe Roque retornou ao local. Daí em diante, sucessivamente, foram aparecendo povoações, estradas, comércio e estabelecimentos educacionais. Observem que nossa proposta é falar sobre rodeio. Nestas alturas vamos nos valer do mestre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira que define o termo “rodeio”, como sendo: “exposição, oral ou escrita, na qual se ladeia um assunto sem abordá-lo diretamente; perífrase, circunlóquio. 6. Bras. Ato de ajuntar o gado para marcá-lo ou para curativo. Parar rodeio. Bras. RS Ajuntar o gado em determinado lugar do campo. Assim, podemos entender que “parar rodeio” é reunir o gado periodicamente em determinado local do campo, isto é, num local geograficamente apropriado para essa atividade. E, essa atividade segundo Luís da Câmara Cascudo, renomado folclorista brasileiro, é sem dúvida ” Reunião de gado de uma estância no Rio Grande do Sul para contagem, cura de bicheira ou qualquer outro mal, simples vistoria e para o aparte, seja para vender o gado apartado, seja para retirá-lo para outra invernada. Local em que se reúne o gado, em geral, sempre no mesmo lugar. Numa estância pode haver vários locais de rodeio: rodeio grande, rodeio de mangueira, etc. Parar rodeio. Operação de reunir o gado (repontar) desde os mais remotos rincões, no local do rodeio Pedir Rodeio. Solicitação que se faz a um fazendeiro vizinho, para procura de gado extraviado. Dar Rodeio. Reunião do gado a pedido de um vizinho ou de um tropeiro. (General José Bina Machado). Já em 1817, Aires do Casal descrevia o rodeio: Em cada fazenda há uma colina, ou terreno dos mais elevados, determinado com o nome de rodeio, plano na sumidade, e com capacidade para receber todo o gado, onde se ajunta, ás vezes que se julga necessário. Para isto, distribuídos os pastores a cavalo em torno do gado começam, a bradar-lhe rodeio, rodeio, a cujas vozes o gado marcha a trote para o rodeio em fileira, e dividido em 50 até 100 cabeças segundo o número em que pastam. Esta manobra é indispensável, pôr o sinal e marca do dono no animal que ainda não a tem , para se castrar, operação que se lhes faz em torno de dois anos, e pelo método praticado com os porcos, e para tirar o que passa de quatro anos; tanto para que o gado não exceda o número de cabaças que a estância possa sustentar, faltando-lhe o pasto, porque, passando a viver mais tempo no campo, foge e desordena o restante do gado .” (Corografia Brasílica, 1º, 96, S. Paulo, 1943) De forma semelhante os trabalhos apresentados pelos escritores: Romanguera Corrêa, Antônio Alvares Pereira Coruja, Luiz Carlos de Moraes, Roque Callage, Rui Cardoso Nunes e Zeno Cardoso Nunes convergem para um mesmo rumo, ou seja: rodeio é a reunião do gado em local determinado e aberto, próprio para a lida, onde se desenvolvem as atividades de aparte, para venda ou para troca de invernada, cura de bicheiras ou qualquer outro mal, aparte para marcar, para tosar as éguas, apartar os touros, para castrar ou simplesmente para contar o gado. As grandes estâncias têm tantos rodeios quantas invernadas fechadas possuem. Destarte, por tudo o que se viu, observa-se que “rodeio” é um local predeterminado, dentro de uma invernada onde o campeiro trabalha o gado, em local aberto e serve exclusivamente para o manuseio necessário a boa criação, manutenção e engorda do gado. O rodeio em si, isto é, suas atividades nunca foram de diversão, lúdica ou lazer. Inclusive, o Movimento Tradicionalista Gaúcho do Rio Grande do Sul elaborou um regulamento para Festa Campeira, onde se desenvolvem as atividades: tiro de laço, pealo, prova de rédeas, prova de chasque, vaca parada, cura terneiro, gineteada, jogo de tava, jogo de truco, jogo de bocha campeira, jogo de solo e finalmente a modalidade Tetarfe que inclui, tava, tejo, argola e ferradura. Estas atividades são desenvolvidas com a intenção de competitividade, com a classificação dos ganhadores, os melhores em cada categoria. Então, sendo competição, não é serviço. É competição, é esporte e lazer. Analisando estes aspectos, concluí-se que, em verdade, o que denominamos rodeio é, sem sombra de dúvidas, uma festa campeira. Considerando que, em termos de cultura o Rio Grande é muito novo, talvez uma das hipóteses seja a de que tenhamos recolhido dos pagos da Esmeralda, lá pelos idos de 1951, quando o Sr. Alfredo José dos Santos, desafiou seus companheiros para na cancha de propriedade de Ataliba Kuze, através de uma disputa, selecionar quem laçava ou pealava melhor. Na época, denominaram esse duelo de cordas de “rodeio”, porém das atividades nele desenvolvidas nenhuma foi laboriosa, todas foram orientadas para classificar os melhores laçadores sem nenhuma finalidade de trabalho, tão-somente competição. Elegendo está hipótese, até os dias de hoje, nossas Instituições Tradicionalistas, equivocadamente, continuam denominando de Rodeio, as Festas Campeiras classificatórias e regionais, pois somente os classificados nestas têm direito assegurado para competir na Festa Campeira do Rio Grande do Sul (FECARS), evento de maior grandeza na categoria em nosso Estado. Em caso de dúvidas, buscamos esclarecimento no artigo 11 do Regulamento da Festa Campeira do Rio Grande do Sul (FECARS). (Art. 11 – A FECARS se desenvolverá em 2 (duas) etapas a saber: I – Fase classificatória regional; II Fase final ou de âmbito estadual). Que tal usarmos os termos corretos e valorizarmos mais os nossos hábitos e costumes?

CRESCENTE DE DEZEMBRO DE 2008

CALTA/RS – “TO”

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