• Aldomar de Castro

Rescaldo

A quinta edição da Festa Campeira do Rio Grande do Sul, que se realizou no Parque Municipal de Exposições “Telmo José Schardeng” em Palmeira das Missões, transcorreu bem, como um evento que atinge três lustros de existência. Ainda é jovem, está na adolescência. Muito esforço da equipe que pleiteou, organizou e executou o maior evento campeiro do Estado. Boa área para acampamento, distribuição equânime, de acordo com a ordem de chegada. Observava-se uma preocupação acentuada de bem atender quem buscava local para instalar seu bivaque, demonstrando claramente a intenção de manter em local de destaque, o rótulo hospitaleiro que a gauchada da tradicional Palmeira da boa erva-mate oferece aos que procedem de outras querências. Esta edição da Festa Campeira, tivemos a oportunidade de assistir como espectador, andando descomprometidamente, apreciando com detalhes o artesanato, as palestras, a organização e controle do estacionamento, a praça de alimentação, a localização, o equipamento de saúde colocado a disposição dos participantes, a atenção dos responsáveis pela segurança, as equipes de manutenção dos serviços essenciais atentas a qualquer incidente. Tudo isso, emoldurado por céleres vôos panorâmicos. Envolvido por este belo ambiente, recostei-me numa sombra e chimarreando passei analisar as expectativas do Movimento diante aquele gigantesco complexo de atividades. Minha singela análise passou a detectar imagens estranhas ao cotidiano tradicionalista, porém, tudo indicava que aquelas criaturas faziam parte da atualidade e o pior, desempenhavam atividades no contexto do evento. O inacreditável estava acontecendo, prendas da Comissão de Recepção, trajando chiripá ( peça masculina, pertencente ao folclore histórico – Só usada em reinterpretação ou projeção folclórica), num evento oficial do MTG. Não acreditei. Olhei para o verde das árvores, limpei a lente dos óculos, voltei ao espantoso quadro e tive certeza – não era miragem, nem a lente dos meus óculos. Infelizmente, as prendas da recepção trajavam chiripá. Esta peça do folclore histórico sugeria uma silhueta máscula, alijando a delicada harmonia do perfil feminino da prenda gaúcha. Enchi outro chimarrão e dirigi meu olhar para o local aonde se realizavam as atividades da bocha campeira. Fiquei olhando atentamente até identificar um participante do jogo oficial usando botas de couro com pelo e tudo, tipo bota forte, não era bota de garrão e, para completar o quadro, ostentava uma vistosa rastra branca com lindos vazados em forma de folhas. Custei acreditar no que estava vendo, quando acreditei, virei as costas e fui até o local que se realizava a prova da vaca parada. De longe avistei uma gurizada em semicírculo recebendo orientações de um gaúcho, provavelmente o responsável pela execução da prova. Chegando mais perto, constatei que realmente era. Comecei ficar triste quando observei a pilcha do juiz, rastra e faca na cintura. Continuei andando até atingir o local do comercio. Este sim, um verdadeiro festival de invencionismo e agressão ao nosso Movimento. Espetaculares rastras bordadas, trançadas, cinturões, laços coloridos, celas andaluzas, alegorias de má qualidade que nada têm a ver com nossa cultura. Verdadeiros absurdos, sendo comercializados num local essencialmente tradicionalista, carinhosamente preparado para cultuar a Tradição Gaúcha. Então, guardei os avios de chimarrão e sai olhando para o horizonte, cheio de indagações, saí perplexo e me perguntando: Será que os próprios gaúchos que se dizem tradicionalistas terminaram com a nossa autenticidade? Será que vale a pena perder a identidade por meia dúzia de patacas? Será que ainda não sabemos compor a autêntica pilcha gaúcha com sobriedade e elegância? Aonde andam as nossas atividades culturais? Acredito que caso o MTG não termine com o comercio de “xenófilos invencionistas”, estes, sem dúvida terminarão com a autenticidade da nossa Tradição.

CRESCENTE DE MAIO DE 2003

CALTARS – “TO”

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