• Aldomar de Castro

O Cavalo

No ciclo do gado o animal favorito não é o novilho, o boi ou a vaca, mas o cavalo. Nessas regiões o bom cavaleiro e título acima de todos. Ter cavalo e andar a cavalo era título de elevação social, refletindo a pura tradição jurídica das “ordenações do reino”. ( Livro V, tit. CXXXVIII,) Nas justificações para familiar do Santo Ofício, o montar a cavalo era elemento de valimento real. O cavaleiro não tinha o seu cavalo próprio para a guerra, perdia a dignidade e a exceção da julgada com que seus bens eram honrados. O cavalo era a explicação para aproximar-se do rei e fazer-se notar no combate. Começava a usar armas defensivas, o escudo, a loriga, a cota e o elmo reluzente. Assim nascia um fidalgo. A honra do cavaleiro era o cavalo. O cavalo era do cavaleiro e somente montado por ele. Era uma distinção notável o empréstimo a um amigo ou visitante ilustre. Comentava-se no lugar o ocorrido, digno de registro oral. Inúmeros privilégios do cavaleiro medieval resistiram os tempos, atravessaram os séculos e chegaram até nós, especialmente ao gaúcho. Sabe-se que segurar o estribo para que alguém monte é altíssima homenagem até hoje. (Lembremos o Imperador Henrique IV segurando o estribo em Canossa para que o Papa Gregório VII montasse sua mula – 1077 ). Conservar ou não esporas dentro de casa indicava o grau de amizade com o fazendeiro. Em determinadas regiões era lícito adentrar nas residências com o chapéu na cabeça, mas sem esporas. Nas residências amigas verificava-se o contrário. As esporas dos cavaleiros, tinindo, arrastando no piso das residências, anunciava-se o companheiro, o irmão, o par, o igual, mas sem chapéu na cabaça. Muitos fazendeiros não permitiam, assim mesmo que seus escravos, capatazes, peões e filhos menores, usassem duas esporas. Podiam usar apenas uma, em qualquer calcanhar, mas apenas uma. Quando os filhos menores casavam ou deixavam de ser imberbes, então adquiriam o direito de andar com as duas esporas, até mesmo na estância do pai. Estes hábitos, sobremaneira, respeitadas as proporções, continuam vivos na vida sociocultural do gaúcho. Observa-se que o gaúcho – estamos nos referindo ao GAÚCHO, não aos travestidos de gaúcho ou gaúchos por conveniência – jamais cumprimenta uma pessoa de chapéu na cabeça, também não é usual entrar ou usar chapéu no interior de residências ou locais cobertos. Imaginem, se naquele tempo já existia respeito ao semelhante, porque será que esse respeito não permaneceu juntamente com os hábitos sadios que viraram séculos. O leitor sabe me dizer?

NOVA E NOVEMBRO DE 1998

CALTARS – “TO”.

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