• Aldomar de Castro

Chiripa

O chiripá é uma peça singela, pelo que se conhece, foi usado por diversos povos. A palavra chiripá, pelos registros de Tito Saubidet “Vocabulário y Refranero Criollo” procede do quíchua (chiri = frio; – pac = para) para o frio. O caderno numero quatro do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore informa que os índios cavaleiros do Tape, mesmo de tribos distintas, porém com características semelhantes, pois suas indumentárias eram constituídas de duas peças: o chiripá e o cayapi. O primeiro constituía-se de um pano retangular amarrado na cintura até a altura dos joelhos, este denominado chiripá primitivo e, o ultimo um couro da rês bem sovado amarrado ao pescoço, com os pelos para dentro e caído sobre as costas, como se fosse uma capa. D. José de Saldanha entrevistou os caciques Batu, Maulein, Salteinho, Tajuy e D. Miguel de Caray na região da fronteira Oeste do Estado nos idos de 1787. Segundo Von Hagen, os índios Nasças do Peru, também o usavam. O chiripá foi usado pelos índios da Cordilheira dos Andes, pelos Guaicurus do Mato Grosso e os escravos negros do Brasil. Diz Silvio Júlio: “o chiripá desceu os Andes, coisa e nome, e obteve no pampa argentino, grande êxito até que a bombacha o venceu no século XIX”. Em 1820 Saint- Hilaire registra o uso do chiripá pelos gaúchos na forma de saia. A mesma referência fez Debret em 1817. Este tipo de chiripá que nos denominamos “primitivo”; Roberto Bouton diz: “ o chiripá usado à guisa de saia chama-se – a lá Oriental – “ Este tipo de vestes não era adequada a equitação, pois sua funcionalidade deixava a desejar. Sobre o assunto o Professor Odalgil Nogueira de Camargo em “Falando em Tradição e Folclore” (Gráfica e Editora Berthier) é claro quando diz: “O traje do peão das vacarias, destinava-se a proteger o usuário e não atrapalhar a sua atividade precípua de cavalgar ou caçar gado chimarrão.” Freqüentemente esse gaúcho só usava dois palas, um da cintura para baixo e outro enfiado na cabeça e botas de garrão-de–potro. Por volta de 1820, os gaúchos do pampa constituído pela Argentina Brasil e Uruguai passam a usar o chiripá fralda, o qual nós chamamos de “farroupilha”, este bem mais funcional e adequado para atender as exigências das lides campeiras. O glossário de João Mendes da Silva (1884) , registra: ‘Chiripá – pano que os gaúchos rio-grandenses, à imitação dos orientais (uruguaios) passam por entre as pernas e sobre as ceroulas, indo prender-se à cintura. È só usado pela gente baixa da estância.” referencia esta, também adotado por João Carlos D’Avila Paixão Cortes em sua obra “O Gaúcho”. O pano usado na sua confecção dependia exclusivamente do poder aquisitivo do usuário. Aproximadamente, aos anos de 1865, o pintor uruguaio, Juan Manuel Blanes registra em obra de arte a imagem do capataz desse época usando: camisa de punhos estreitos, colete com gola, chiripá, botas de garrão-de-potro, poncho, lenço na cabeça, chapéu de copa baixa e aba curta, este estilo provavelmente para facilitar o manejo do laço. Temos informações através de registros de Luiz Celso Hyarup sobre os lanceiros da revolução Farroupilha, os quais usavam chiripá-saia, mais tarde, observa-se tanto os soldados farrapos quanto os das forças auxiliares vestindo o chiripá fralda ou farroupilha. Interessante é o registro de Gaston D’ Orleans, Cande D’Eu, em sua obra “Viagem Militar ao Rio Grande do Sul (1865)” que o chiripá, já estava em decadência, mas ainda encontrou em uso nas tropas de Devid Canabarro entre os soldados uruguaios e prisioneiros paraguaios. Após a guerra do Paraguai , que terminou em 1870, o chiripá vai perdendo espaço para a bombacha que o colocou por definitivo fora de uso, passando a fazer parte do Folclore morto ou histórico. Muitos outros registros e informações sobre o assunto estão disponibilizados em excelentes obras de autores que se dedicaram á pesquisa iconográfica. Porém, com as que referimos é perfeitamente possível concluirmos que o chiripá é uma peça que desempenhou sua função como peça essencialmente masculina, dado sua impraticidade, cedeu lugar á bombacha que o substitui com vantagens para a lida rurígina. Desta forma ele só reaparece em reinterpretações e/ou projeções folclóricas. Na prática, jamais se deve usar chiripá em qualquer outra atividade diversa das anteriormente citadas. O chiripá foi peça da indumentária masculina usada pelos peões e soldados da época, portanto, não é recomendável seu uso por pessoas do sexo feminino, nem mesmo em projeção ou reinterpretação. Nós gaúchos, no que diz respeito aos nossos próprios hábitos e costumes, entendemos pouco e, ás vezes, influenciados por comunicadores desinformados que entendem menos que nós, passamos a fazer o que não dominamos completamente. Nesta situação praticamos, sobremaneira, os erros mais crassos e, até mesmo expomo-nos ao ridículo, usando peças da indumentária de época em local ou atividade inadequada. Esclarecendo: (indumentária de época é aquela que não se usa mais, o domínio popular isentou-a do cotidiano por entender que não serve mais para o dia-a-dia). Na grande maioria das vezes, na melhor das intenções, pretendendo demonstrarmos apego pelas coisas do Pago, prestamos um desserviço á Cultura da nossa Querência. Para evitar esses estenderetes, podemos trocar informações entre interessados sobre o assunto ou consultarmos obras de escritores especializados na matéria tais como: El Gaúcho de Fernando O. Assunção – Indumentária Gaúcha de Antonio Augusto Fagundes, O gaúcho de João Carlos D’Avila Paixão Cortes, La indumentária Del gaúcho em los siglos XVII y XIX de Ricardo Rodriguez Molas e muitos outros escritores que realizaram excelentes pesquisas sobre o tema. Assim, bem informados, podemos projetar ou reinterpretar qualquer fato folclórico com a indumentária que julgarmos mais conveniente, sem corrermos o risco de levar a pecha de desinformado

CHEIA DE AGOSTO DE 2008.

CALTARS – “TO”

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