• Aldomar de Castro

Faca

Informa-nos a Academia Brasileira de Letras que, faca é um instrumento cortante formado de uma lâmina, relativamente curta e um cabo de madeira, chifre, metal ou qualquer outro material que desempenhe a função. Os dicionaristas descrevem este objeto como sendo “instrumento cortante constituído de lâmina e cabo”. A faca, como tantos outros objetos, também foi contemplada com inúmeros epitetos, tais como: chavasca, biguana, carneadeira, língua de vaca, língua de chimango, prateada, aparelhada, xerenga, ferro branco, arma branca, faca de rasto, etc. Este instrumento apresenta-se de várias formas, cada uma afeiçoada a proposta e as particularidades funcionais para seu uso e desempenho. A faca apresenta-se na cozinha como utensílio, no preparo e aperfeiçoamento dos ingredientes necessários à arte culinária. É ferramenta primordial do guasqueiro, que corta e desquina o tento para trançar apeiros de montaria, cordas, laços; confeccionar maneadores, ou qualquer outro artigo que tenha como matéria prima na sua constituição, o couro. Companheira fiel do campônio nas carneações, nas castrações, nas lidas de campo. Quando no desempenho dessa atividade, por vezes, se faz necessário cortar uma corda, para evitar um acidente ou salvar um animal; para consertar um apeiro ou sangrar uma rês que se quebrou. Nas regiões coloniais, a faca participa das atividades agrícolas, para falquejar um canzil, para auxiliar em pequenos consertos, para sovar a palha e picar o fumo na feitura do palheiro; é ainda ferramenta primordial na colheita e no preparo de rações para os animais piqueteiros ou de estrebaria. Na lúdica, marcou presença confeccionando bodoques, arcos, flechas, cavalos de pau e outros brinquedos de madeira. É protagonista no jogo de tejo, na dança dos facões e da faca maruja. Esta faca utensílio, ferramenta, este objeto que colabora em diversas atividades, prestando incomensuráveis serviços, quando usada no trabalho, é considerada ferramenta. Por outro lado, pode se transformar numa terrível arma, quando implantada na ponta de uma vara ou taquara servindo como lança para defender os interesses deste chão. Muitas vezes foi usada desta forma. A faca, ferramenta de trabalho, também desempenhou tarefas malignas e destruidoras, nas mãos dos incautos, covardes e assassinos degoladores que sacrificaram vidas, sob a égide de uma facção política predominante na época, que defendia uma filosofia tétrica, enigmática e tendenciosa. Observa-se que a faca é usada como ferramenta e, a mesma faca ferramenta, também pode ser usada como arma. A exemplo disso lembramos com pesar, os inúmeros delitos praticados através desse instrumento. O Movimento Tradicionalista Gaúcho do Rio Grande do Sul, para melhor orientar seus filiados, normatizou no seu Regulamento Geral, ( Art. 272 – Em bailes, fandangos e outras atividades sociais, especialmente em recintos fechados, é vedado o uso de armas, chapéu, esporas, boleadeiras, tirador e outros utensílios campeiros. Parágrafo Único – Aplica-se o disposto neste artigo também para os conjuntos musicais.) Imaginem os senhores, a dificuldade que os dirigentes do M TG/RS enfrentam para disciplinar o procedimento social dos filiados, normatizaram a norma, isto é, trouxeram para o bojo do seu Regulamento Geral, o que preceitua a Lei Penal Brasileira Dlei nº3.688 de 03 de outubro de 1941, publicada no DOU de 13 de outubro de 1941. ( Art. 19 – Trazer consigo arma fora de casa ou dependência desta, sem licença da autoridade.) Pasmem os senhores, com tudo isso, com todas essas informações, é comum em qualquer querência deste Rio Grande abençoado, contemplarmos patrões, peões farroupilha, associados, etc., portando faca dentro dos CTGs. Pessoas estas, de projeção administrativa e cultural das entidades tradicionalistas, exatamente as que têm obrigação de dar exemplo aos demais. Será que precisamos dizer que o galpão “símbolo”, sofreu um processo de socialização e hoje, o C T G é tão-somente um local, onde se desenvolvem atividades sociais e culturais, portanto ,alheias as atividades com uso de faca. Ah. . . sim! O flébil pretexto: para cortar o churrasco. . . Esqueceram-se, os gaúchos de ensaio, que o churrasco servido à mesa deve ser cortado com o talher que lhe disponibilizaram. Quando o churrasco for a campo, espeto cravado no chão, aí sim, podemos normalmente, segurar com os dedos polegar e indicador, um pedaço de carne e “passar a faca”. Ainda poderão os oniscientes argüirem em defesa da imagem do centauro dos pampas, o qual sempre foi visto portando faca. É verdade, porém, sempre no desempenho de atividades campeiras ou dentro das suas propriedades. Será que ainda há necessidade de informar que a faca não faz parte da pilcha social? Que só é permitido o uso da faca em atividades campeiras e, dentro dos CTGs, estas atividades não se realizam. Ilustres senhores, responsáveis pelo zelo da cultura Rio-Grandense, nós não somos obrigados a normatizar procedimentos, mas se o fizermos, devemos cumpri-los, sob pena de sermos taxados de, na melhor das hipóteses, sibilinos e, isto não deve acontecer com um Movimento altiloqüente igual o nosso. ou deve?

MINGUANTE DE NOVEMBRO DE 2004

CALTARS – “TO”.

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